Rússia ameaça bombardear navio de guerra britânico após tiros de advertência

MOSCOU, 23 de junho (Reuters) – A Rússia disse na quarta-feira que deu tiros de advertência e jogou bombas no caminho de um navio de guerra britânico para expulsá-lo das águas que Moscou reivindica no Mar Negro, na costa da península da Crimeia.

A Grã-Bretanha rejeitou o relato da Rússia sobre o incidente, dizendo acreditar que qualquer tiro disparado foi um “exercício de artilharia” russo pré-anunciado, e que nenhuma bomba foi lançada. Mas confirmou que seu destroyer, o HMS Defender, navegou pelo que descreveu como águas pertencentes à Ucrânia.

O navio estava “realizando uma passagem inocente pelas águas territoriais ucranianas de acordo com a lei internacional”, disse o Ministério da Defesa da Grã-Bretanha em um comunicado. O porta-voz do primeiro-ministro Boris Johnson disse: “É incorreto dizer que foi alvejado ou que o navio estava em águas russas”.

Especialistas militares disseram que, independentemente de os detalhes dos relatos russos ou britânicos serem precisos ou não, o incidente parecia representar uma escalada no confronto entre o Ocidente e a Rússia sobre rotas marítimas disputadas.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia classificou a passagem do navio de guerra britânico pela área como um ato de “provocação flagrante” e disse que convocaria o embaixador britânico sobre o incidente, o que realmente ocorreu nesta quinta-feira (24).

A Rússia apreendeu e anexou a península da Crimeia da Ucrânia em 2014 e considera as áreas ao redor da costa da península como águas russas. Os países ocidentais consideram a Crimeia parte da Ucrânia e rejeitam a reivindicação russa dos mares ao seu redor.

Rússia ameaça bombardear navio de guerra britânico após tiros de advertência
Navio de guerra britânico. Reprodução: Google

“Passagem inocente” é um direito internacionalmente reconhecido para os navios navegarem nas águas territoriais de um país, desde que não tenham a intenção de causar danos. “Isso foi feito para testar a determinação russa sobre a Crimeia”, disse à Reuters Mark Gray, especialista em segurança marítima e coronel aposentado da Marinha Real britânica.

“A Rússia está tentando criar fatos locais e fazer com que eles sejam respeitados internacionalmente, para que sua anexação seja de fato carimbada pelo mundo”, disse ele, comparando as reivindicações de Moscou no Mar Negro com as de Pequim no Mar da China Meridional, também rejeitado pelo Ocidente.

O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, disse que o incidente mostra que as “políticas agressivas e provocativas” da Rússia no Mar Negro e nas proximidades do Mar de Azov constituem uma “ameaça contínua à Ucrânia e seus aliados”. Em um tweet, Kuleba pediu mais cooperação entre a OTAN e a Ucrânia no Mar Negro.

Os países ocidentais estão conduzindo exercícios navais esta semana no Mar Negro, conhecidos como Sea Breeze. Horas antes do incidente, a embaixada da Rússia em Washington pediu aos Estados Unidos e aliados que os cancelassem.

O contratorpedeiro britânico visitou o porto ucraniano de Odessa nesta semana, onde foi assinado um acordo com a Grã-Bretanha para ajudar a atualizar a marinha ucraniana.

O Ministério da Defesa da Rússia, citado pela agência de notícias Interfax, disse que o destróier britânico deixou as águas russas logo depois que a Rússia disparou os tiros de advertência. Um bombardeiro russo lançou quatro bombas de fragmentação de alto explosivo em seu caminho, disse.

O ministério russo disse que o navio britânico se aventurou até 3 quilômetros (2 milhas) em águas russas perto do Cabo Fiolent, um marco na costa sul da Crimeia perto do porto de Sebastopol, quartel-general da frota da Marinha Russa no Mar Negro.

“O destróier foi avisado de que armas seriam usadas se ultrapassasse a fronteira da Federação Russa. Ele não reagiu ao aviso”, disse o ministério.