Há muito tempo vem se falando a respeito da criminalidade no Brasil e daqueles que põem suas vidas em risco, tanto para manter a ordem em nível de sociedade, quanto para proteger a população. Mas o que não se sabe, e/ou não é noticiado, é que o sofrimento emocional do policial é uma realidade urgente de atenção e cuidados.

Em qualquer profissão que inclua perigo para a vida do profissional é necessário o acompanhamento psicológico. Infelizmente muitos chegam a tirar suas vidas, por vergonha ou medo de se expor diante de situações trágicas, por exemplo, ou mesmo pela tensão sofrida durante o exercício do trabalho.

O problema emocional do policial é uma realidade em todo o país, principalmente nos lugares onde o índice de violência é alto, como o Rio de Janeiro, por exemplo. Os policiais são obrigados a ser violentos devido à ousadia e agressividade dos bandidos, e isso vai gerando ao longo do tempo um tensionamento emocional à beira do insuportável se não for devidamente cuidado.

Policiais e a psicologia

Um grupo de psicólogos da PM, junto com um Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (GEP e SP) investigou a questão através de uma pesquisa realizada entre policiais militares. Eles chegaram a seguinte conclusão: no Rio, as chances são quadruplicadas dos PMs cometerem suicídio.

Esse resultado foi publicado em 2016, no livro chamado “Por que os policiais se matam?”. Entre esses rezultados, também foi identificadas as dificuldades que eles têm de pedir ajuda, e a forma como são tratados pela corporação, quando adoecem. Um deles chegou a dizer que ficou de atestado durante 15 dias, mas quando retornou pra sua atividade, sofreu punição de 6 dias dentro da corporação.

“Quando eu voltei, eu fiquei seis dias detido no batalhão, preso. É. Meu tratamento foi esse. Eu fiquei dois dias hospitalizado e 15 dias em casa. No 16° dia, eu voltei à companhia. Me entregaram à tropa e fui punido”, disse.

Faz cinco anos que um dos policiais de Santa Catarina, cometeu suicídio. Ele tinha 40 e poucos anos, e o corpo dele foi encontrado dentro do carro, quando estava no caminho para o trabalho.

“Foi algo que ninguém esperava, fomos descobrir que ele teve depressão depois que ele se matou. A depressão dele é aquela que tem alteração de humor, ele sempre teve isso. Depois que se matou que fomos entender o que era. Meu pai nunca falou sobre isso [depressão]. No dia achamos que tinham matado ele, não sabíamos que tinha sido suicídio. Até porque só falaram para a gente que ele tinha se matado perto do velório. Foi difícil porque ele não nos contava nada. Ele era bem fechado, era o jeito dele”, diz a filha.

Sua filha conta que a polícia militar, tinha conhecimento da necessidade dele ser acompanhado por um psicólogo.

“A polícia também nunca tirou ele da rua, mesmo sabendo das situações. A polícia sabia, tanto que ele chegou a consultar um psicólogo da instituição, mas aí ele não quis mais ir, não gostou e não o obrigaram a sair da rua. Ele continuou trabalhando. Meu pai passou 20 anos na polícia, todo esse tempo na rua.”

Em São Paulo, foi constatado, que 120 policiais militares se suicidaram, no período entre 2012 e 2017.

Adilson Paes, hoje coronel reformado da Polícia Militar, diz que são números muito altos e resultado de anos de omissão.

“Há muitos casos que não são notificados e muitos não buscam o tratamento psiquiátrico porque vão sofrer chacota no ambiente de trabalho. Serão chamados de covardes e fracos; os comandantes podem crer que eles estão enrolando para matar serviço, por exemplo. É um ambiente bem machista e de virilidade, em que não podemos assumir fraquezas. Eu fui treinado assim, com os trotes na academia, os trotes das unidades em que passei. Você é humilhado e tem que aguentar porque o bom militar aguenta, o guerreiro aguenta toda e qualquer violência e acha isso normal. Nos fazem achar que fomos feitos para isso, mas ninguém foi feito para isso. Quando a PM não assume que seus policiais têm problemas, a instituição está fechando uma panela de pressão vazia, sem água, que vai explodir um dia”, adverte Paes de Souza, que ainda carrega as cicatrizes da violência sofrida na profissão. “Bom, eu faço terapia”, diz.

2.500 policiais, já foram afastados por transtornos mentais, ente janeiro e agosto de 2018. Esse dado foi obtido, pela Lei de Acesso à Secretaria de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro.

Esses casos de suicídio, tem ocorrido em todo Brasil. Alguns pesquisadores, disseram que os profissionais de saúde da PM, devem estar atentos a qualquer mudança no estado psicológico de algum militar: “no atendimento ao policial militar, principalmente aquele em atividade-fim, e em constante atuação de enfrentamento junto à criminalidade, o profissional de saúde deverá estar atento a comportamentos que demonstrem o afastamento das condutas de segurança requeridas para a prática da ação policial militar”, e complementa: “deve-se afastá-lo de sua arma de fogo ou outro meio que tenha à disposição e conduzi-lo ao psicólogo. É interessante entrar em contato com familiares ou amigos próximos na tentativa de fortalecer a rede de apoio”.

O cuidado e acompanhamento de todos os profissionais, que estão em situação de alta periculosidade, como os PMs, é de responsabilidade não apenas dos órgãos específicos, mas também do governo. Devido os altos índices de suicídio, deve-se colocar na lista de prioridade, o cuidado da saúde e o zelo, daqueles que estão na linha de frente de proteção à população.